Um temporal durante a pandemia – e tudo fica ainda pior…

A chuva caiu pesada por várias vezes durante a madrugada. Acordei preocupado se uma de minhas gatas já teria voltado pra casa. Olhei o relógio, eram duas e meia. Desci para checar se estava tudo bem pela casa e felizmente a gataiada estava protegida. Os animais costumam antever desastres, dizem. Pressentem grandes vendavais e, ao que parece, chuvas fortes. Chequei o celular e não havia nenhum alerta da Defesa Civil avisando-nos do temporal. Muitas horas depois, já no meio da manhã, veio um aviso de que poderiam ocorrer enxurradas e deslizamentos. Ah sim, muito obrigado.

Meses atrás, já durante a pandemia, li uma reportagem da NHK falando de uma determinada região do Japão que tentava se preparar para as grandes enchentes que costumam ocorrer por lá. A novidade seria a pandemia e a necessidade de organizar abrigos com distanciamento social. Os japoneses, segundo a matéria, estavam em grandes dificuldades para organizarem espaços adequados e seguros. Além disso, estavam redesenhando toda a estratégia de deslocamento da população, redirecionando-a para novos abrigos. Uma dificuldade mesmo para japoneses. Pouco tempo depois, soube que grandes enchentes atingiram essa mesma região, como já estava previsto. Se a mídia brasileira aproveitou a ocasião para introduzir essa questão – desastres naturais durante a pandemia ? Me parece que não. Embora tenhamos várias regiões do país vulneráveis à grandes enchentes e chuvas torrenciais, não se fala em preparação para desastres…

Se o mal é inevitável, menor será se houver algum tipo de preparação. Eu nem falo em obras públicas que poderiam melhorar a condição de córregos e rios. Não falo também em outras medidas voltadas para morros e encostas. Estou falando de algo mais simples, e ao mesmo tempo mais complicado: preparação de pessoas. Avisos e alertas em celulares, emissoras de tv e rádio. E ainda que não tenhamos nada parecido com operações simuladas de salvamento ou treinamento em percepção de risco, um simples alerta algumas horas antes já poderia ajudar muito. Penso no impacto psicológico. Quem já passou por alguma situação extrema, como uma enchente ou vendaval, sabe bem a diferença entre passar pela coisa sem aviso e com aviso. Em vários lugares do mundo isso é feito. Por mais que se perca, por maior que seja o pânico, tenho certeza que há uma diferença entre ter sido avisado e não ter sido. Boa parte da preparação para evitar perdas e danos é uma preparação da mente. Ficamos atentos, de sobreaviso, enquanto tudo está voando ou a chuva cai como um dilúvio. Como podem passar por cima disto? É básico!

Em meio à pandemia, com hospitais à beira de um colapso pela ocupação de leitos e esgotamento das equipes, deixar de monitorar um evento desta magnitude é quase uma irresponsabilidade. Com toda a tecnologia que já se dispõe, é imperdoável que as pessoas não sejam ativamente informadas a respeito de um perigo iminente. Avisos prévios como já citados e suporte durante e logo após o evento, podem fazer toda a diferença. No meio da madrugada recorri a um aplicativo da Defesa Civil instalado no meu celular. Era impossível extrair alguma informação clara e objetiva sobre o volume de água que caía ou sobre o nível dos principais rios da região. Foi preciso esperar amanhecer para ter alguma notícia mais precisa pela tv. Pergunto se ainda podemos lidar assim com nossos desastres.

Combinação perigosa: pandemia + enxurrada após temporal

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