E se a telepsiquiatria só for usada para casos leves?

Médicos não costumam introduzir novas condutas em sua prática, até que elas demonstrem ser confiáveis e úteis. Entre uma postura conservadora mantida há décadas e inovações surgidas nos últimos anos, os médicos tendem a ficar com a primeira opção. Inovações digitais vem sendo incorporadas em todas as áreas de atividade humana mas talvez a medicina ainda seja um dos territórios menos modificados pela cultura digital. Algumas especialidades médicas já se mostram tremendamente digitalizadas enquanto outras ainda ignoram ou subestimam as inovações. Talvez seja o caso da Psiquiatria, especialidade que independe de equipamentos e procedimentos tecnológicos e onde o encontro presencial sempre foi visto como condição sine qua non.

A telemedicina, a propósito, surgiu em meio à experimentos com atendimentos psiquiátricos, no início dos anos sessenta. Esse dado histórico porém não foi suficiente para deixar os psiquiatras brasileiros experientes em seu uso. Vamos lembrar que as teleconsultas no Brasil estiveram, até muito recentemente, cercadas de todo tipo de limitação e só foram liberadas no contexto da pandemia. Diga-se de passagem que é muito possível que, numa próxima Resolução, o CFM volte a criar alguns empecilhos à sua prática ampla e irrestrita, apesar dos apelos em contrário. Podemos dizer que estamos engatinhando em matéria de teleconsultas psiquiátricas, adquirindo lentamente experiência em acolher, estabelecer vínculos, conduzir investigação diagnóstica e monitorar tratamentos, tudo à distância. Vamos combinar que o pano de fundo de uma grave pandemia não é lá o melhor cenário para nos aventurarmos no que quer que seja. A tendência, numa situação como essa, é a de não trocarmos o certo pelo duvidoso. E é muito provável que a maioria dos médicos esteja agindo assim, deixando as inovações para um momento menos tenso. Não podemos nem dizer que tenha havido um grande e claro chamamento nacional para a adoção de teleconsultas como forma de se evitar o contágio pelo coronavírus. Longe disso. Nem na rede pública, nem na rede privada – salvo raras exceções – os atendimentos presenciais migraram para o digital. Na verdade eles simplesmente foram suspensos nos primeiros momentos da pandemia para depois voltarem mais ou menos ao “normal”, com alguns pacientes preferindo evitar os consultórios mesmo que a teleconsulta fosse nada além de uma conversa improvisada pelo WhatsApp. Teleconsultas tem sido então adotadas para as chamadas “consultas de retorno”, orientações rápidas e envio de receitas controladas. Mas é tudo muito recente e não se pode dizer que já saibamos como fazer. Mesmo entidades médicas que poderiam estar norteando essa migração para o digital – como a Associação Psiquiátrica Americana já faz nos EUA – estão como que esperando a pandemia passar para “tudo voltar ao normal”. Nesta linha, podemos imaginar que psiquiatras estejam sendo bastante cautelosos e evitando de acompanhar casos graves por Telepsiquiatria. Já ouvi de muitos colegas que somente atenderiam à distância pacientes que já tivessem passado por uma ou mais consultas presenciais, de preferência casos leves e já conhecidos, sem nenhuma dúvida diagnóstica ou em revisão de tratamento medicamentoso. Mas se a telemedicina é um método de investigação, muito mais do que uma simples “ferramenta”, alguma coisa está ficando de fora neste desenho. Se continuarmos endereçando para a teleconsulta apenas nossos casos leves corremos o risco de levarmos muito tempo até adquirirmos expertise. Noutros países, diga-se de passagem, a telemedicina já é uma realidade há muitos anos e, portanto, já existe larga experiência acumulada. Nosso atraso é constrangedor. Num mundo cheio de negacionismos de todo tipo, chego a pensar que temos por aqui um outro tipo: o negacionismo digital. Só esse conceito parece poder explicar o medo – e horror – de alguns às inovações digitais/tecnológicas na área médica…

Com relação ao médico psiquiatra, algumas preocupações e fatores específicos da especialidade poderiam estar levando os profissionais a reservarem as teleconsultas apenas para situações leves, evitando os casos graves. Vamos ver o que pode estar levando os médicos à prática de uma “telemedicina light” e por onde poderíamos começar a corrigir esse equívoco.

  • Falta de experiência (e familiaridade) com plataformas de telemedicina. Esta não é uma dificuldade específica de psiquiatras e sua superação só virá com o tempo. Para corrigirmos o atraso de décadas, deveríamos estar nos concentrando em ampliar maciçamente o uso das plataformas de telemedicina, tanto na rede pública quanto na privada. Se houver tolerância e permissividade com relação ao uso de plataformas não específicas (como WhatsApp), os médicos jamais aprenderão como fazer uma telemedicina ética e responsável;
  • Falta de formação, treino e capacitação em atendimentos à distância. Outro ponto não exclusivo dos psiquiatras. A superação desta limitação só virá com um amplo programa de formação que envolva as universidades, as entidades médicas e órgãos governamentais. Um largo caminho ainda pela frente que poderia ser minorado com o humilde reconhecimento de nosso atraso e um pedido de ajuda aos profissionais de outros países já com alguma experiência (Portugal, Colombia, Australia etc);
  • Desconhecimento da telepropedêutica psiquiátrica e de como utilizá-la. Outro fator diretamente relacionado ao tempo em que passamos privados da prática da telemedicina. Psiquiatras, assim como todos os outros especialistas, vão precisar desenvolver toda uma nova maneira de observar, examinar e diagnosticar, utilizando-se das novas tecnologias. A superação deste ponto está diretamente relacionada aos programas de formação/treinamento a serem criados. Universidades teriam papel fundamental aqui mas, para isso, precisariam contar com departamentos de inovação digital, o que ainda é bem raro;
  • Receio de que, em caso de agravamento do paciente atendido à distância, não será possível recorrer a uma rede local de suporte ou que será difícil aciona-lá à distância. Um receio totalmente compreensível que só poderá começar a diminuir à medida que forem se formando redes de cooperação entre profissionais, serviços, hospitais, clínicas privadas e equipes da rede pública, com as mais diferentes combinações e arranjos. A telemedicina exercida do consultório para a casa do paciente não pode ser o único modelo nem o mais explorado. É preciso pensar a telemedicina como um elemento da medicina conectada e, neste sentido, começarmos a construir as conexões para uma verdadeira atenção híbrida;
  • Receio de que pacientes graves (e/ou seus familiares) invadam a privacidade do médico e o acionem de modo abusivo através de mensagens, expandindo para o meio digital questões de responsabilidade profissional, limites contratados etc. Aqui, novamente, outra preocupação compreensível. Como nos itens anteriores, a experiência de outros países poderia nos ajudar. Além disso, será necessário construir pautas e consensos sobre como lidar com situações do gênero.

Especialidade tradicionalmente baseada no encontro presencial, a psiquiatria tem muito a ganhar com a incorporação da telemedicina. Mas para isso seus profissionais precisarão superar velhos hábitos e conceitos, treinarem novas habilidades e adquirirem novas reflexões e novas formas de observar, dentre tantas mudanças exigidas pela cultura digital. Identificar e reconhecer agora que podemos estar mantendo a Telepsiquiatria numa espécie de “banho-maria” pode nos ajudar a evoluir. Temos um longo caminho pela frente e o fato de estarmos imersos num mundo digital não será suficiente para nos orientar em nossa prática profissional. Precisamos, desde já, identificar onde estamos falhando, postergando, receando, para logo corrigirmos o curso e entrarmos no futuro.

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