A Medicina Conectada em dias de Pandemia – Do improviso à prática responsável

A Portaria 467 do Ministério da Saúde recentemente lançada liberou, sem margem para dúvidas,  o uso das teleconsultas enquanto durar o estado de emergência. A novela em torno da liberação ou não da Telemedicina no país – que já se arrasta desde 2002 – foi então meio que suspensa para, tal qual na televisão, dar lugar à uma edição temporária e mais compacta. Ainda assim, persistem dúvidas e inseguranças, afinal o imbroglio jurídico é uma das consequências diretas do atraso com que o assunto é tratado no Brasil faz tempo. Outra consequência direta e danosa é a falta de expertise pois se, salvo raras exceções, ninguém usa, ninguém continua sabendo usar. A pandemia do Coronavírus expõe e revela o custo deste irresponsável atraso agora, com médicos e empresas do setor batendo cabeça e, na prática, muito pouca telemedicina ainda nas ruas. Que agonia…

Participei, nos últimos dias, de tres encontros online reunindo empresários e médicos interessados no assunto Telemedicina. Quase todos não escondem animação com a ideia de que “agora não tem mais volta”. Pensam já num cenário pós pandemia, onde os atendimentos à distância passarão a ser muito mais bem vistos pelos médicos e pacientes, como tudo aliás que se fizer com distanciamento social. Ao meu ver porém, esquecem-se de olhar para o momento atual, o grave e agudo contexto da pandemia, quando todas as atividades, todos os setores da sociedade, correm para ações de reparação dos danos, se esforçam solidariamente, abrem mão de ganhos e focam na…sobrevivência humana. É sintomático, no entanto,  que os médicos que tem ido à tv para falar sobre a crise não consigam falar para as pessoas que, preferencialmente, deveríamos todos estar sendo atendidos à distância. Notei que os psicólogos não padecem deste mal e estão divulgando ativamente as plataformas onde é possível o atendimento online, gratuito ou pago. Enquanto todo mundo está aderindo ao home office, o equivalente médico disto – a Telemedicina – continua sendo uma possibilidade meio incerta no horizonte, ao menos para a maioria dos profissionais. Que atraso…

Eu resolvi olhar para os lados e analisar como as quatro clínicas onde atendo estão se virando. São clínicas de especialidades, tres delas atuam em duas ou mais cidades e apenas uma é local. Em nenhuma delas, é claro, havia uso da telemedicina antes da crise. Na lista informal que criei, resolvi acrescentar uma espécie de “classificação de risco de contágio”, uma vez que, de acordo com a Portaria do MS (e tudo que se fala sobre telemedicina durante a pandemia) o uso da ferramenta é altamente indicado para reduzir o risco de contágio de pacientes, médicos e profissionais envolvidos no atendimento (como recepcionistas, auxiliares etc). Em nenhuma das soluções propostas, o potencial da telemedicina de deter o contágio foi explorado ao máximo. Vamos ver que continuam existindo riscos, seja para pacientes, seja para médicos ou, principalmente,  para funcionários. O que não se justifica. Atendimentos presenciais estão sendo realizados, supõe-se, sob condições de restrição e cuidados, com limitação de número de pessoas em sala de espera etc.

Vamos à lista das clínicas e suas soluções:

  • Clínica 1

Atua em duas cidades

Estará aberta para atendimentos presenciais dentro de alguns dias

Tem prontuário eletrônico (que não pode ser acessado de casa)

Criou um Plano de Contingência que inclui teleconsultas

Como funciona? O médico deve se dirigir à clínica, acessar a ficha do paciente, entrar em contato com o paciente através de celular (da clínica) e realizar vídeo chamada pelo aplicativo Whatsapp. Em seguida, registrar no prontuário. O paciente deve comparecer depois para retirar a receita e efetuar pagamento

Classificação de risco de contágio (de 1 à 5):

Para o paciente  → 4 (sai uma vez de casa)

Para o médico → 4 (Sai de casa, interage na clínica. Risco grau 5, se for atender presencialmente)

Para funcionários  → 4

 

  • Clínica 2

Atua em 4 cidades

Manteve-se aberta para atendimentos presenciais

Tem prontuário eletrônico (que não pode ser acessado de casa)

Criou um Plano de Contingência que não inclui teleconsultas

Como funciona? Na ausência da opção de teleconsultas e me decidindo pela manutenção do confinamento, estou atendendo às solicitações de receitas controladas feitas por auxiliares da clínica. Somente pacientes que já tinham passado por consulta comigo podem solicitar. Pacientes de 1a vez não estão sendo atendidos. É feita uma verificação no prontuário quanto aos medicamentos que vinham sendo usados. Faço as receitas de casa e as envio por motoboy para a clínica. Em seguida, o paciente é avisado para comparecer e retirar a receita.

Classificação de risco de contágio (de 1 à 5):

Para o paciente  → (sai de casa uma vez)

Para o médico →

Para funcionários  → 4 (a clínica está realizando atendimentos presenciais para pacientes não covid19)

 

  • Clínica 3

Atua em tres cidades

Estará aberta para atendimentos presenciais dentro de alguns dias

Tem prontuário eletrônico (que pode ser acessado de casa)

Criou um Plano de Contingência que inclui teleconsultas

Como funciona? A clínica repassa o numero do celular do médico para o paciente e  o médico combina realização de  vídeo chamada. O registro é feito no prontuário. Depois o médico envia a receita para a clínica.

Classificação de risco de contágio (de 1 à 5):

Para o paciente  → 1 à 2 (pode receber a receita via motoboy)

Para o médico → 1

Para funcionários  → 4 (a clínica está realizando atendimentos presenciais)

 

  • Clínica 4

Atua numa única cidade

Estará aberta para atendimentos presenciais dentro de alguns dias

Tem prontuário eletrônico (que não pode ser acessado de casa)

Criou um Plano de Contingência que inclui teleconsultas

Como funciona? Paciente é agendado e deve comparecer à clínica onde, com ajuda de funcionária, entra em vídeo chamada com o médico, utilizando plataforma dedicada à telemedicina. A cobrança é feita neste momento. O médico envia a receita para a clínica e o paciente pode recebe-la por motoboy.

Classificação de risco de contágio (de 1 à 5):

Para o paciente  → (sai de casa uma vez)

Para o médico → (contato com motoboy)

Para funcionários  → 4 (a clínica está realizando atendimentos presenciais)

 

Dada a falta de padrão na adoção da Telemedicina no Brasil o que se depreende destes exemplos é a improvisação, o arranjo conforme algumas conveniências. Cada clínica parece ter adotado um plano de acordo com o que seu proprietário pensa. Para aqueles que o Whatsapp pode ser considerado telemedicina, nada mais natural do que indica-lo em seu plano de contingência.

Essa pandemia coloca na mesa uma outra questão que dificilmente entrará na agenda do Conselho Federal de Medicina e de outras entidades do setor saúde (e de tecnologias em saúde): a adequação de nossas normas e exigências aos novos tempos de desastres naturais e similares (como uma pandemia). Num exercício de futurologia fiquei imaginando se, em algum lugar do mundo, inclusive aqui, essa epidemia viesse acompanhada por algum desastre natural tipo uma enchente, uma seca prolongada, um incêndio fora de controle. São cenários cada vez mais plausíveis e que, quando ocorrem, revelam as fragilidades e irresponsabilidades cometidas, desnudam improvisos e remendos, nos põem em perigo. Exagero afirmar que o fato de mais de 90% dos médicos brasileiros ainda não terem nenhuma experiência no uso da telemedicina nos coloca em risco e exibe um atraso injustificável? Penso que não. Como já afirmei, essa crise deveria estar sendo a centelha para que todos os envolvidos no setor (academia, empresas, profissionais, governos, autoridades de saúde) estivessem se reunindo e colocando em prática um plano nacional de teleconsultas, ou algo do gênero. O tempo está passando. Nada voltará a ser como antes. Nem mesmo o fabuloso mercado para as novas tecnologias de informação e comunicação em saúde. Essa seria inclusive a oportunidade para esse segmento ganhar os corações e mentes de todas as pessoas, através de ações rápidas, concretas e eficazes, contribuindo na estratégia do isolamento social e mantendo a saúde física e mental de todos. Infelizmente, até aqui, prefere-se pensar no pós pandemia. Que erro! Que equívoco…

 

 

 

 

 

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