Ferramentas colaborativas – Até onde queremos ir?

Há um grande faz-de-conta no ar: A ideia difundida de que estamos todos a colaborar em nossos grupos. Que a cada vez que damos aquela olhada rápida nas últimas mensagens trocadas, estamos “interagindo”, estreitando vínculos, colaborando. Será mesmo? Infelizmente acho que não. Até gostaria. Como bom aquariano, sofro do mal de olhar para os lados e só ver amigos e colaboração onde, na verdade, o que existe é gente competindo e de má vontade…

As coisas só pioram se você está imerso num grupo – como esses de WhatsApp – onde seria preciso estar organizando o enorme e intenso fluxo de mensagens, onde há tarefas – e resultados – a serem entregues, onde seria preciso, ou desejável, que você conseguisse agregar uma série de outras funcionalidades pensadas para um trabalho sério e profissional. Mas o faz-de-conta está colocado e instituído. A brincadeira é não levar à sério, muito menos profundamente, coisa alguma, seja assunto sério, seja uma bobagem como um churrasco de domingo. E vamos lidando com os diferentes níveis de questões da mesma forma, sem nada que indique que estamos olhando para as coisas procurando ouvi-las e entendê-las. Não, estamos só “interagindo”. E superficialmente.

Pegue um grupo de WhatsApp. Alguns desavisados até tentam. Vão lá e postam, uma, duas, três vezes, algum link para um artigo, um estudo. Você vai ler no celular, naquelas letras miúdas que só seu sobrinho pode enxergar? Não, você não vai ler. Mas você pode salvar num outro lugar, numa nuvem, “para ler mais tarde”, talvez no conforto de seu tablet, agora sim, ou no computador. Mas boa parte se perde. Muitos nem se dão a este trabalho, porque enviar isso ou aquilo para um outro lugar “já é pedir demais, afinal isso aqui é só um grupo…”. É preciso enxergar e considerar a hipótese de estarmos sempre qualificando ou desqualificando nossos espaços no mundo digital, do mesmo modo como classificamos as coisas, os lugares e as pessoas nas nossas vidas. Não é diferente. Não há status sério e compenetrado possível para um grupo no Whatsapp. Não, não há. A plataforma de mensagens padece do mesmo mal que já havia ferido de morte sua dona mais velha, o Facebook: simplesmente não é confiável. Não tem cara nem jeito de coisa séria. Está no DNA. A desqualificação de espaços digitais é essa espécie de contaminação, de poluição visual, auditiva…cognitiva até. Algo que se espraia em nossas emoções, nos deixa mal, mesmo que a gente não identifique bem porque. Simples assim: no mundo digital, já temos espaços poluídos, por nós mesmos e outros ainda “puros”, com o perdão da palavra já desgastada. Espaços ao menos com menor carga de contaminação de todo tipo. Isso é pouco? Não, não é. Experimente rolar seu interminável feed no Facebook ou se deter no caos de meia dúzia de grupos no WhatsApp. Daí visite, de boa vontade, um quadro no Trello, um mural digital no Padlet…vai parecer que você subiu a serra e agora avista as montanhas e os passarinhos. Exagero? Não creio…

Eu tenho uma ideia fixa na cabeça. Muita gente se preocupa com aquilo que imprimimos nas redes sociais, na internet. Eu ando preocupado com os efeitos na direção contrária, sempre sutis e quase imperceptíveis, do uso que estamos fazendo das tecnologias em nossas mentes. Noutras palavras, percebo, inquieto, mudanças sutis na forma como estamos pensando e pior ainda, na forma como estamos discutindo as coisas. Trocar mensagens superficiais e telegráficas num grupo está nos fazendo mal, muito mal. O próprio fato de a plataforma de mensagens não contar com uma série de funcionalidades – até porque não se propõe a isso – já determina como discutiremos determinado assunto. Não, as pessoas não querem discutir profundamente coisa alguma, embora pareça que sim.

O teste definitivo para constatar o que estou falando é propor a mudança, a migração – que horror! – para uma outra plataforma, uma daquelas que seja bem pouco amigável para grupos de bobagens e onde a brincadeira seja outra: discutir as coisas profundamente. E com recursos os mais variados. As pessoas querem tecnologia? Não, não querem. Ou se querem, querem antes muitas outras coisas, como poderem continuar na superfície de tudo, em suas “zonas de conforto” conhecidas…Qualquer inovação tecnológica, qualquer plataforma de trabalho colaborativo – como um Trello da vida – incomoda e não atrai. Mais do que isso, dá enorme preguiça de se experimentar. Alguns grupos vão resistir…e atacar. Sob a bandeira providencial da “luta-contra-mais-um -aplicativo-para-eu-instalar” – você sendo o monstro neurótico que inventou a história e eles os usuários light – esconde-se uma outra luta: aquela que se trava contra a nova cultura de colaboração. Mas não foi pra isso que a internet se formou…e continua existindo? A proliferação de grupos superficiais, levianos, desorganizados e em permanente conflito (ou confusão) é apenas um desvio, deliberado, para matar no ovo o embrião de uma nova e profunda transformação em nossas formas de pensar, trabalhar, colaborar e por isso mesmo, viver melhor. É inconsciente, como muito do que acontece à nossa volta. É um blefe, uma hipocrisia, a forma como as pessoas se opõem ao uso de algo que não conhecem mas intuem que será qualitativamente diferente. A pergunta poderia ser: até onde queremos ir? Pelo visto, parece que não muito longe. O ser humano e seus temores…

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